A solidão

A solidão sempre foi uma grande questão para a humanidade. Nascemos sozinhos, morremos sozinhos – é o que dizem, por mais que estejamos rodeados de pessoas. E o que é a solidão?

Disse Clarice, a Lispector, exímia ourives de palavras e sentidos: “E ninguém é eu, e ninguém é você. Esta é a solidão”. A solidão é ser único, por mais que se tente parecer, interna ou externamente, com outra pessoa. É sentir lá dentro, onde ninguém chega, por mais que queira.

No fundo, somos sós. No final, dependemos apenas de nós. Somos do mundo em que vivemos – dentro das nossas cabeças.

Filósofos, no entanto, distinguem solidão de solitude. A primeira é composta por um vazio, uma ausência de contato externo, o ato desagradável de estar só, o isolamento; a segunda, por sua vez, tem um significado oposto, refere-se à paz, ao encontro consentido com si mesmo, à busca da plenitude interior, sem a necessidade de estar acompanhado de outras pessoas. Essa solitude pode nos remeter, por exemplo, aos monges que se guardam nos mosteiros, ou aos peregrinos, que andam sozinhos, ou melhor, solitudinos, em estado de reflexão, transcendência. desfrutando a própria companhia e as paisagens.

Solidão é a dor de estar sozinho, solitude é a glória, ou a virtude de estar sozinho.

Queremos aqui falar em especial da solidão, esse mal que tanto afeta nossos tempos. E que agora, com a quarentena imposta pela pandemia de Covid-19, tem se expandido nas pessoas dentro de suas casas, seus castelos, em frente a seus espelhos, sempre presentes.

A solidão já era característica de nossa era pós-moderna, de pessoas conectadas globalmente pela Internet, nunca antes tão livres para se expressar e ser – ainda que haja muito preconceito e obstáculos. O coronavírus apenas encontrou uma poltrona confortável dentro de casas e pessoas repletas de vazios, antes distraída e brevemente preenchidos.

Mas há casos em que os isolados encontram a solitude, que é a sabedoria na ausência alheia, o saborear a própria companhia, ponderar, aproveitar o tempo para adquirir conhecimentos, criar, avaliar, reinventar-se. A solitude, com certeza, é mais rara, mais difícil de ser sentida que a solidão. Aquela é o preenchimento interno, esta, o oco íntimo. Nem sempre esse oco tem explicação: pode-se estar muito bem acompanhado de pessoas e coisas, e sentir-se só.

Eis que estamos sendo obrigados a ficar em nossas casas, evitar sair, conviver com o medo da contaminação de um vírus que já ataca mais jovens que idosos, e cuja letalidade aumenta a cada dia no mundo. O vírus, em sua própria solidão, precisa se ligar às células humanas, para lá se reproduzir, a elas se mesclar.

Nós, como a maioria dos animais, somos seres sociais, porém algumas pessoas optam pela solidão como autopunição, ou por medo, ou distúrbios psicológicos. Precisamos uns dos outros. Até hormônios da felicidade são produzidos com o contato físico amigável, com a presença benéfica do outro. Nem sempre ela é benéfica, é verdade.

E agora estão dizendo “fique em casa”. Um estudo apontou que cerca de 30% das pessoas em isolamento social estão desenvolvendo depressão, ansiedade e sintomas pós-traumáticos. Volta e meia a TV pergunta o que alguém sonha fazer quando puder sair de sua casa com liberdade, sem máscara, libertar-se da solidão. Olhos giram, sorrisos aparecem.

A solidão aumentou. A solidão dói. A solidão pode levar à solitude, se houver esforço, paciência e consciëncia. A solidão também pode literalmente matar, ser autodestrutiva: os índices de suicídio, depressão e ansiedade do século XXI são alarmantes. Engraçado, se temos as redes sociais, os programas de conversa instantâneos, a companhia do celular, os likes, os mil e um “amigos” virtuais, a plateia a quem fazemos a performance apenas das melhores partes da nossa vida.

Por fim, estar acompanhado por alguém não significa não estar sozinho. É o velho cenário daquela pessoa que anda, como um buraco negro, entre a multidão: não é tocada, não toca, tudo é distante, ninguém imagina o que se passa em seu interior – pode até sorrir, enquanto seu peito desfalece. Ou a solidão a dois: uma dupla de buracos negros em galáxias distantes.

Então, como você está passando o isolamento? Ao que parece, em pleno pico de contaminação, não vamos nos livrar tão fácil, ou tão plenamente dele. Podemos escolher entre solidão e solitude? Podemos realmente aprender a cultivar essa solitude, que se trata de um “estar bem com si mesmo”?

Nesta quarentena, em especial, esperamos que muitos de nós encontrem a solitude: a convivência pacífica e harmônica com si mesmo. Uma convivência que produz, imagina, descansa, completa. Que faz pessoas melhores, uma sociedade melhor.

Ame-se primeiro, cuide-se primeiro, suporte-se, aceite-se, mude se for necessário.

Não se contente em acostumar-se à solidão como forma de vida ou disfarçá-la: relacionamentos rasos, ruins, abusivos, drogas ilícitas, bebidas alcoólicas em excesso, eventos contínuos incubam a solidão de muitos. Apertam a cabeça dela para debaixo d’água, mas ela sempre volta, e olha bem nos olhos de quem a tentou sufocar.

Nunca estivemos tão sós, antes e durante esta quarentena: “Estamos sós, e nenhum de nós sabe exatamente onde vai parar”, canta Humberto Gessinger.

O que eu queria era sair de madrugada em meio à chuva, sem guarda-chuva, e gritar como Clarice Lispector gritou: “Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.” E o brilho do sol! A vida são opostos que se completam e nos formam.

Nesta quarentena, busquemos a solitude, voltemos mais fortes, diferentes, não por um dia ou uma semana, mas no coração, aquela mudança verdadeira.

Importante é manter relacionamentos saudáveis – antes só do que mal acompanhado. Partilhar, trocar, ligar-se a pessoas que – se possível – nos façam bem. Aguentar as que nos fazem mal, se for o caso. Somos o reflexo daqueles com quem convivemos, e da falta dos que não temos. Vamos escolher as companhias certas, na medida do possível.

E descobrir quem somos, desenvolvendo-nos, conhecendo-nos, amando-nos, cuidando-nos, assumindo o papel de autores da nossa história. Invista em você. Não abandone jamais a única companhia que estará lá em todos os momentos da sua vida, até o fim: você mesmo. Gnōthi seauton: “Conhece-te a ti mesmo” – um antigo segredo, celebrizado por Sócrates, praticado desde a Antiguidade.

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Quesia Batista

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