O fim do Quiosque de Revistas da Praça da República

No dia 10 de novembro, um domingo qualquer de 2019, testemunhei um fato que passou despercebido por grande parte da população de Ijuí, em que pese seu grande valor simbólico e cultural: o encerramento das atividades do quiosque de jornais e revistas da Praça da República.

Durante décadas o quiosque da família Huth repartiu com a Livraria Progresso, da família Salberg, e de outras poucas iniciativas a tarefa de fornecer diariamente material impresso aos ijuienses contribuindo com a qualificação cultural, em especial das crianças, adolescentes e jovens.

Conheci a banca de revistas da Praça da República no ano de 1976, quando cheguei em Ijuí para cursar o ensino médio. Nunca mais me desliguei física e emotivamente do local. Andei pelo mundo mas sempre voltei para encher os olhos com as cores provocantes das revistas, jornais e livros expostos e, não menos importante, sentir o perfume maravilhoso da tinta depositada em variados tipos de papel.

Era um depósito de teorias, um tesouro de informações. Foi por ali que acompanhei o processo de redemocratização do País, os governos liberais do início da Nova República e ascensão e queda do projeto petista. Foi ali que tive acesso ao mundo maravilhoso da publicações esmeradas da Abril Cultural e da Brasiliense, às coleções Os Pensadores e Primeiros Passos, somente para citar dois exemplos marcantes.

Alguém disse que a gente é mais filho dos livros que lê do que dos pais biológicos. Eu acredito nisso. Com todo o respeito que tenho pelos meus amados e saudosos genitores, que tudo fizeram para minha felicidade (tarefa por demais ingrata), me sinto filiado ao que li. Sinto-me filho dos panfletos, jornais, revistas e livros e, recentemente, sítios virtuais que inseminaram minha mente.

Tenho certeza que muitas outras pessoas viveram experiência semelhante em relação à banca que ora encerra seu ciclo vital. Quando soube da má novidade, cheguei a supor alguma imposição do poder público concedente, mas fui informado pelos atendentes que a decisão se deveu tão-somente à falta de perspectiva econômica. Há pouco espaço para o mercado de impressos na atual quadra histórica.

Aliás, não parece ser somente o mercado de impressos que está em baixa. Toda a área cultural sofre profundo abalo no Brasil. Ainda mais com a política governamental que ressuscita em pleno Século XXI a máxima de Goebbels: quando ouço falar de cultura, saco logo minha Luger.

Sei que na vida das cidades, como na vida humana, há tempo de nascer, se desenvolver e morrer. Para mim, a imagem parece bem apropriada, pois sinto a Praça da República em parte morta sem a banca de revistas do quiosque. Isso que nossa praça já definhava por outros fatores de incrível mau gosto kitsch que empoleirou no projeto original penduricalhos como a falsa cascata, o totem de propaganda bancária e as floreiras feitas a facão.

No mínimo, fica o registro: os que combatem com ideias perderam mais um bastião.

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