O ódio que você semeia

Leila Krüger

O ódio que você semeia, de Angie Thomas, é um dos livros mais vendidos no planeta hoje. Trata-se de uma obra atemporal, como são todos os livros capazes de mudar as pessoas e, através delas, mudar o mundo (rememorando citação do político romano Caio Graco). Atemporal, mas nunca foi tão “bem-vindo” esse livro, em especial no Brasil.
Por quê?
Porque esta obra fala sobre ser uma garota negra nos Estados Unidos que “aprendeu desde cedo como se comportar frente a um policial”. Racismo. Um dos muitos tipos de preconceito, que é um tipo de ódio.
O Brasil se tornou um país cheio de ódio.
O “homem cordial”, receptivo, do clássico Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, foi se enfezando, se extremando. Atravessou décadas (que na verdade são séculos) de exploração, patriarcalismo, corrupção – no governo e também no povo, com seu “jeitinho brasileiro” – e preconceitos. E chegou até aqui, “pê da vida”.
Pois o Brasil é hoje um país cheio de preconceitos e de ódio. No sangrento cenário do coronavírus, do desemprego, do racha entre Esquerda e Direita e da incompreensão do que não é extremista, a bola da vez é o racismo. Um dos ódios que as pessoas semeiam. Já no bojo de “quem matou Marielle”, negra, vereadora do Rio, mulher homossexual, veio a morte de um homem negro – vamos citar seu nome, George Floyd era seu nome, porque “vidas negras importam”, certo? George Floyd foi sufocado pelo joelho de um policial branco – que não merece ter seu nome citado – até morrer. Em SP, noticiou-se que um PM sufocou um negro até desmaiar.
George Floyd gerou uma onda de comoção – e ódio – ao racismo no mundo. No Brasil, em especial, em que dizem que 50% da população é negra. E mataram Marielle. E o presidente loiro de olhos azuis é, para muitos, um genocida fascista que despreza o Covid, o que fez o Brasil oficialmente bater o recorde de mortes diárias pelo vírus – é claro que nosso sistema de saúde pública e a desinformação e rebeldia do povo ajudam. Um anti-democrático, elogiou o golpe militar de 1964. Para outros, os “de verde e amarelo”, Bolsonaro é uma figura que combate “os de vermelho”, comunistas, eles mesmos criadores e financiadores de ditaduras genocidas, algumas ativas como na Venezuela, em Cuba e na Nicarágua. Duas faces do ódio na política, e quem tenta não ser extremista é quase sempre tachado de “fraco” na nossa terra. Experimente.
Assim, o Brasil está rachado de ódios: Direita e Esquerda, brancos e negros, racistas e antirracistas, fascistas e comunistas, nazistas homofóbicos e defensores das minorias, evangélicos e ateus, os que tudo sabem e os que nada sabem. Quase todo mundo acha que tem toda a razão.
E ainda tem a morte em massa dos índios, pelo desprezo ao Norte e aos povos indígenas na pandemia, aliado ao desmatamento na Amazônia que cresce de forma assustadora. O velho preconceito contra nordestinos (não deixe de ler “A hora da Estrela”, de Clarice Lispector, e conheça Macabéa). Contra árabes. “Pardo não, negro”, “negro não, mulato” – sobre Machado de Assis, mas “mulato” remete a “mula” e agora o termo é “afrodescendente”. O clássico “O caso dos dez negrinhos” de Agatha Christie virou “E não sobrou nenhum”. Não vou julgar. Como disse Leandro Karnal, no Brasil de hoje, todos somos muito vigilantes com questões humanitárias, mas estamos “todos contra todos”.
E cheios de ódio.
O “ódio ao ódio que semeia o ódio”. As minorias estão cheias de ódio, os homens brancos heterossexuais fascistas patriarcalistas estão cheios de ódio, o ódio é um sinal da inveja, que é um marco do nosso povo, que denota infelicidade, malícia e até maldade. A culpa é do outro, os espelhos da maioria se quebraram para que não fossem olhados por seus donos. É mais fácil olhar para o lado. E odiar o diferente, sem se reconhecer como gente.
O Brasil ainda é, no fundo, o país do “homem cordial”? Ele se perdeu para sempre? Ou apenas grita, esgotado, torturado pela ditadura do ódio? O homem cordial criou o carnaval, as rodas de samba, a bossa-nova, a “loira gelada” à beira da praia, o país do futebol, sim, ainda é o país do futebol, apesar de o esporte ter sido inventado na gélida Inglaterra, e futebol era alegria, sempre foi, deveria ser, mas até o futebol brasileiro está cheio de ódio… Literalmente, feridos e mortos.
Não estou falando de ser omisso, de não ter opinião, de não lutar pelo que acha certo. Não estou falando de leniência, malemolência, daquele que se manteve neutro nos tempos de crise moral e a quem se destinam os lugares mais quentes do inferno, conforme Dante Alighieri. Estou falando de ódio.
E, para terminar de falar de ódio tupiniquim, que é a maior expressão de um povo infeliz, miserável, com pouca cultura e conhecimento; que fere por ter sido e ser com frequência ferido; que nasce para trabalhar muito e ganhar pouco; que ri de quem ousa sonhar porque quer tanto sonhar; que não consegue se aposentar, que ganha uma merreca de aposentadoria; que não acredita em mais nada, que acredita apenas no que vê só a um palmo do seu nariz; que “odeia quem odeia”; para terminar de falar desse ódio, deixo a você duas perguntas muito antigas, com pouco mais de dois mil anos de idade. Nunca foram tão atuais, como a obra de Angie Thomas:
“Por que reparas tu o cisco no olho de teu irmão, mas não percebes a viga que está no teu próprio olho? E como podes dizer a teu irmão: Permite-me remover o cisco do teu olho, quando há uma viga no teu?” (Jesus Cristo, em Mateus 7, versículos 3 e 4). De retrógrado, Cristo não tem nada! O amor que pregava O crucificou pelos que viviam de odiar…
Repare na palavra “irmão”. Teremos nos esquecido de que “somos todos irmãos, braços dados ou não”, como cantou Gonzaguinha? (“Para não dizer que não falei de flores”).
Antes de condenar o ódio de algo ou alguém, você precisa enxergar o ódio que você semeia. O que você está jogando pelo caminho? Às vezes, de olhos fechados.
Ódio é neutralizado com amor, não com mais ódio. Todo ódio é igual: odioso e mortal. E a indiferença também é um tipo de ódio, porque é o oposto do amor.
Enfim, nós aqui temos tantos problemas neste lindo país, de tantas cores e flores e “sabiás que gorjeiam mais que lá” (Gonçalves Dias), não vamos nos render ao mais óbvio que é odiar. Ferir, cuspir na cara, não aceitar o diferente, nós que somos tão variados. Coloque-se no lugar do outro, tenha um pouco de empatia, celebre ou ao menos respeite a união em um momento de morte e tristeza. O Covid mata, é fato, mas o ódio mata muito mais, de tantas maneiras que jamais poderemos expressar. Apenas sentir. E fazer sentir.

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