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A sociedade do desempenho e do cansaço

Em sua série de livretos, o filósofo coreano Byung-Chul Han (2019), que desenvolveu seus estudos acadêmicos na Alemanha, fala sobre a teoria de uma sociedade que transforma tudo em objeto de consumo, de um outro que fascina o eu e é sem-lugar, de uma crescente do narcisismo em massa que chega a excluir o eros no sentido original de Platão: é a sociedade do desempenho e do cansaço.

Platão define que a alma ou psique (ψυχή) é composta por logos (lógica), thymos (ira ou temperamento) e epithymia (eros, apetite, ou orgulho, coragem, desejo). Chul Han (2019) supõe que a sociedade atual “amassa” a experiência erótica em si, a transcendência, a singularidade do outro, em defesa de uma infinita liberdade de escolha que na verdade é uma liberdade coercitiva, ainda pior que a coerção panóptica dos tempos de controle social rígido (escola, igreja, família tradicional etc.) de Foucault.

O ser, que não é mais indivíduo, se autoexplora, como senhor e escravo de si mesmo, e exaure a si mesmo por maior desempenho, produtividade, inquietude, diante de uma multiplicidade surreal de alternativas de consumo. Chul-Han (2019) fala na racionalização do amor e na ampliação da tecnologia de escolha na sociedade atual, que resulta na narcisificação do eu.

Resumindo, tornamo-nos, cada um de nós, mercadorias consumidoras e consumidas (em especial nas redes sociais e na Internet em geral), exaustas, comparando-se umas às outras de forma constante. Aí aumentam os casos de problemas psíquicos, como ansiedade e depressão: o sujeito “vagueia aleatoriamente nas sombras de si mesmo até que se afoga em si mesmo” (CHUL-HAN, 2019, p. 10). A depressão, afirma Chul-Han, é uma enfermidade narcísica que nasce de uma relação sobrecarregada com o eu, junto ao abandono que o outro lhe impõe.

Portanto, ao mesmo tempo em que hoje a sociedade é orientada para o sucesso, máximo desempenho, máxima produtividade e máximo consumo, esvazia os seres de si mesmos e os torna exaustos e deprimidos. Nossa sociedade está dominada pelo verbo modal poder, o oposto de uma sociedade disciplinar que conjuga o verbo dever (CHUL-HAN, 2019). Somos empreendedores de nós mesmos, de livre desempenho, mas estamos “enforcados”, “engasgados”, retraídos e rumando à autodestruição interna. Parece um tanto paradoxal – ou não, se você olhar bem: não somos livres de verdade, exploramos a nós mesmos até nos esturricar. 

Não somos mais os indivíduos da obediência de Foucault, que, embora oprimidos pela sociedade, possuíam alguma estabilidade e uma liberdade interna e secreta. Somos os heroicos – ou vilões – que vivem a depressão e o esgotamento pelo excesso de positividade (!). O poder tem mais coerção que o dever. Somos projetos, para Chul-Han (2019). O capitalismo elimina a alteridade (o outro) para colocar tudo sob a égide do consumo.

Estamos, mais do que nunca, existindo e não de fato vivendo – ao contrário do que pensamos. É a evitação da negatividade, da morte, a sucessão fugaz de momentos e a escravidão do trabalho e do ego. Geração saúde? Claro, como no sentido do último homem de Nietzsche, que venera a saúde, “grande deusa”: “’Descobrimos a felicidade – dizem os últimos homens e piscam os olhos’” (NIETZSCHE, s/d, p. 14). Isso é o apenas existir ou mero viver, equiparado a um escravo hegeliano que se autoexplora. 

Muita filosofia até aqui? Apenas para pincelar o fato observável de que somos, em geral, sujeitos narcisistas-depressivos, sem imagem própria estável, por isso sempre vulneráveis a novas mercadorias de identificação e comportamento – escolha no buffet que nunca para de ser servido. Nisso tudo, gostaria de pontuar, mais uma vez, a atuação dominante da tecnologia, notadamente da Internet e das redes sociais, dos aplicativos de smartphone, como extensões do nosso corpo, da nossa mente, até mesmo da nossa alma. Mas, seja como for, estamos sempre ligados – ou o mundo pede que estejamos – nas rápidas mudanças e atalhos, na otimização mecânica e prática da nossa vida, no mero viver ou apenas existir como entes produtivos.

A sugestão seria o ato contemplativo, sugerido por Nietzsche. O parar um pouco, olhar mais e melhor, mais profundo, menos exposto e menos preocupado com o desempenho. Mas como, com o capitalismo selvagem? Quem fica para trás come poeira… Fato é que estamos cansados, exaustos por fora, por dentro, ambos, há muito barulho no planeta, o pensamento e especialmente o conhecimento e o autoconhecimento necessitam de silêncio, artigo raro.

Chul-Han (2019) alega que o pensamento logos só se eleva a partir do eros, que, em sua essência relacionada à alteridade, vai desaparecendo em nossa sociedade narcísica, ultraprodutiva e cansada.

Como você tem lidado com seus conflitos mais profundos? O que tem feito por você, e apenas você, sem estendê-lo ao espetáculo da exposição? O que de fato deseja? Quem você é, é desejável aos outros ou a você mesma(o)? Você está exausta(o), mas precisa produzir e mostrar desempenho? Estamos quase que em uma corrida do Dick Vigarista, em que nós somos nossos autossabotadores por imposição social?

Mas pare. Contemple. Contemple-se. Procure um lugar silencioso e pacífico, e ao mesmo tempo sonhador e auspicioso, dentro de você. E ao redor: relacionamentos saudáveis, o corte das superficialidades desnecessárias ou desnecessariamente opressivas.

É hora de descansar. Não somos máquinas que trabalham por produtividade e desempenho até pifar. Temos alma, eros, alteridade, o amor-próprio original sem o narcisismo doentio.

Encontre seu caminho, e lembre-se de que, como disse Clarice Lispector, a direção é mais importante que a velocidade – ao contrário do que berram nossos cinzentos tempos de pandemia – de Covid e de semideuses.

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