Guerras de vacinas: 1904 e 2021, a saúde da população brasileira em jogo

Hoje temos em pauta a vacinação contra o Covid – sua obrigatoriedade e as alternativas disponíveis, e a rapidez do processo de imunização.

Mas, no passado, no Brasil, ocorreu um conflito com a vacinação, não de Covid, mas de varíola – a Revolta da Vacina, em 1904 no Rio de Janeiro – ainda capital do Brasil. O episódio se propagou fundamentalmente de 10 a 16 de novembro, quando a população protestou contra a Lei da Vacinação Obrigatória, além de os serviços públicos. A pandemia principal, como mencionado, era a varíola, e todos os brasileiros com mais de 6 meses de idade deveriam ser vacinados, sob o comando do sanitarista Oswaldo Cruz (1872-1917). Além da varíola, as condições precárias da época abrigavam entes patológicos como a febre amarela e a peste bubônica.

Houve debates acalorados entre o povo e os governantes, e o presidente Rodrigues Alves interveio com o intuito de, ao mesmo tempo, modernizar a cidade, gerando melhores condições de saneamento básico e uma estrutura mais eficiente, e erradicar as epidemias. Isso, é claro, afetou a rotina dos cariocas e mudou o país. Desconfiada, a “manada”, em geral pobre e inculta, avessa a uma Ciência ainda obscura, se opôs a tomar a vacina, embora cercada de ratos e mosquitos transmissores de doenças que matavam sem parar.

Naquela época, pouco se conhecia sobre vacinas. Por isso, é compreensível que tenha havido tamanha revolta da população, temendo por sua vida e pela liberdade de escolha diante de um governo determinado a resolver uma situação endêmica. O governo chegou até mesmo a pagar a quem caçasse ratos e os entregasse a autoridades, o que foi desastroso com o surgimento de criadores de roedores. A despeito disso e de tudo, a campanha de saneamento e a vacinação seguiram firmes, sem que as pessoas tivessem informações sobre a vacina e de como se prevenir das doenças e fazer a higienização.

Resumo: os funcionários da saúde pública invadiam as casas, com a polícia, para vacinar à força. A população resistia à bala, alegando ser seu direito não tomar o “líquido desconhecido”. Vem o vandalismo na cidade como forma de protesto, quando se torna necessário vacinar-se para se casar, viajar, se empregar, se hospedar e se matricular em escolas. Desobediência rendia multa, o que foi noticiado pela imprensa.

A consequência de tudo isso foi uma revolta direcionada ao próprio governo e aos serviços públicos. Proclamou-se Estado de Sítio, e o cancelamento da vacinação obrigatória em 16 de novembro de 1904, após muitos conflitos. A vacinação se tornou optativa. Entretanto, muita gente foi presa, outros, mortos e deportados, suspeitos de participar da guerra contra a vacina.

E agora, mais de cem anos depois, 2021, vivemos um dilema com um quê de semelhança em relação a 1904: o STF decretou a obrigatoriedade da vacinação contra a Covid no Brasil, sob pena de multas e sanções. Só que, hoje, grande parte da população, já familiarizada com epidemias e vacinas, deseja se vacinar, e há até uma “corrida pela vacina” – novas doses e tipos estão para chegar ao Brasil, na segunda onda de um vírus mais transmissível e agressivo, a Sars-Cov-2.

Há quem não confie nas vacinas, em especial na que vem da China, onde o vírus surgiu e alvo de teorias conspiratórias de guerra biológica – a Coronavac. Além dela, que tem apenas 50% de eficácia em média, há a Pfizer, com melhores resultados clínicos, a Sputnik V da Rússia – cerca de 90% de eficácia – e a Oxford da Inglaterra, entre outras. 

Nas redes sociais borbulham informações alarmantes sobre possibilidades de as vacinas serem danosas, conterem microchips inseridos nas pessoas ou até alterar o DNA e desenvolver outras doenças.

A verdade é que, apesar de as vacinas alegadamente passarem por rígidos processos de testes, não se pode afirmar que danos elas podem provocar. Até porque pouco sabemos do próprio coronavírus, com suas inúmeras mutações, sintomas e sequelas incessantes. Há uma forte oposição à vacinação, paralela ao movimento social daqueles muitos que estão sedentos pela prevenção.

As últimas dão conta de que o governo Bolsonaro irá gastar cerca de R$ 30 milhões com as vacinas Sputnik V e Covaxin, após ter trazido a Coronavac. Uma reunião foi marcada para o dia 5 de fevereiro a fim de definir a negociação, enquanto o governo brasileiro é acusado, pela grande oposição, de retardar a vacinação e o acesso às vacinas, colaborando com a propagação do vírus e suas mutações e o aumento de mortos.

Nas palavras da ministra Carmem Lúcia, integrante do STF: “A Constituição não garante liberdade de uma pessoa para ela ser egoísta. Ela vive no meio de todos, ela responde por si e pelo outro”. Já o ministro Luiz Fux alegou, encerrando a votação sobre a obrigatoriedade da vacina em dezembro de 2020: “Hesitação contra a vacinação é considerada uma das dez maiores ameaças à saúde global, segundo a OMS. Quero agradecer a vossas excelências pelo empenho e esforço para concluir o resultado dessa questão, transmitindo ao povo brasileira a segurança que ele tanto precisava quanto a esse tema que ora se põe diante dessa pandemia que já levou a óbito tantos brasileiros”.

E você, está na turma que anseia pela vacina – os “furadores de fila” estão sendo até punidos – ou que desconfia de um conluio global da indústria farmacêutica e das substâncias disponibilizadas? Fato é que precisamos, como cidadãos exemplares, seguir as determinações do governo: tomar uma vacina contra Covid, seja qual for.

O Covid venceu 2020 e se alastra por 2021 com mais força do que se poderia imaginar. Certezas são poucas, quanto a prevenção ou cura, mas não podemos deixar de reconhecer que a vacinação em massa, em todo o mundo, é um ato pró-humanidade, é nossa única alternativa para tentar diminuir o alastramento da pandemia de forma rápida e agressiva.

Mil novecentos e quatro, 2021, nós ainda temos pandemias como Covid e vacinas. Azar o nosso pelas doenças que se alastram, sorte pela possibilidade de cura. 

Compartilhe:
Jornal HoraH

Jornal HoraH